A formação dos “realizadores indígenas” - NIETTA LINDENBERG MONTE


Parte de uma rede de organizações não-governamentais com atuação em terras indígenas, o VÍDEO NAS ALDEIAS constrói sua trajetória particular no cenário do novo indigenismo brasileiro ao apresentar uma renovada proposta educativa junto aos povos indígenas e à sociedade brasileira e internacional. Seu trabalho tem obtido reconhecimento como marco de referência original não só pelo rico acervo etnográfico que acumulou em 18 anos, mas pelos processos educacionais interculturais que estão na origem e nos fins de sua produção audiovisual.

A livre afirmação dos corpos como condição do cinema - ANDREA FRANÇA


Assistindo a Shomotsi, Kiarãsã Yõ Sãti: o amendoim da cutia, Kinja Iakaha: um dia na aldeia, Daritidzé: aprendiz de curador, Das crianças Ikpeng para o mundo, todos realizados por videastas índios, o que mais me surpreendeu, num primeiro momento, foi perceber que esses documentários jogam em duas frentes, dirigem-se a dois tipos de público bastante distintos: para o homem branco, ocidental, esses documentários parecem nos dizer que somos nós que nos tornamos outros, “índios”, pois os que foram esquecidos não esqueceram; para os índios, os vídeos não só permitem que eles tenham acesso, elaborem e recriem a sua própria imagem, como também mostram que eles podem ensinar coisas que outras comunidades indígenas, assim como o homem branco, não sabem.

Câmera muy very good pra mim trabalhar - IVANA BENTES


Num momento em que as questões em torno da potência das imagens – como forma de conhecimento e pensamento, como comunicação e estranhamento radical do outro e de si – tornam-se decisivas para se pensar a cultura contemporânea, o projeto Vídeo nas Aldeias, coordenado por Mari Corrêa e Vincent Carelli, ganha uma dimensão singular. Para além do pioneirismo, esse projeto, que existe desde 1987, chega em uma etapa decisiva e radical, ao apresentar, não apenas a produção de vídeos da equipe do projeto sobre os índios no Brasil, mas ao formar uma geração de realizadores indígenas que vêm fazendo uma espécie de “auto-etnografia” ou auto-documentário, em que os próprios índios registram e editam suas imagens, passando de objetos a sujeitos do discurso.

Conversa a cinco


Convidamos os cineastas Eduardo Coutinho e Eduardo Escorel para conversarem conosco sobre os filmes dos realizadores indígenas produzidos pelo Vídeo nas Aldeias. Enviamos vários filmes a cada um, além dos textos do primeiro catálogo. Nossa intenção era recolher suas “impressões cinematográficas” sobre essa produção indígena que ainda é pouco conhecida no panorama do documentário brasileiro.

Crônica de uma oficina de vídeo - VINCENT CARELLI


Em setembro de 1997, depois de dez anos de atividades em diversas aldeias, o projeto reuniu pela primeira vez numa oficina nacional 27 alunos de treze etnias no Parque do Xingú. Durante este encontro, os índios Xavante Divino Tserewahú e Bartolomeu Patira fizeram um convite aos alunos mais chegados, mas sobretudo aqueles considerados mais talentosos, para participarem da filmagem do ritual de furação de orelha em sua aldeia em 1998. Os convidados foram o Kim Abieti, os dois Suyá Winti e Nikramberi, e os dois Xavantes, Jorge e Caimi.

Cultural por adição: uma indigenização da teconologia? - CARLOS FAUSTO


Comparado a outras ex-colônias do continente americano, o Brasil é
relativamente pouco marcado pela presença indígena. A sociedade brasileira
contemporânea não recupera senão episodicamente um passado indígena, ao
contrário de países como México, Peru ou o Paraguai que constituíram sua
identidade nacional por inclusão desse passado, por sua reatualização póscolonial.

Enfia essa câmera no rabo - LEANDRO SARAIVA


Em “Corumbiara”, o grande vencedor do Festival de Gramado deste ano, as imagens documentais ultrapassam a função estética e procuram novo sentido ético e politico.

Entrevista com Vincent Carelli - RUBEN CAIXETA


1997 é um ano marcante para nós, pois: 1) comemorava-se dez anos de fundação do projeto Vídeo nas Aldeias (VNA); 2) acontecia no Xingu a primeira oficina VNA de realizadores indígenas; 3) realizávamos a primeira edição do forumdoc.bh com uma retrospectiva quase integral dos filmes VNA e com a presença emblemática da etnóloga Dominique Gallois e do cineasta- indigenista Vincent Carelli.

Na edição de 2009, o forumdoc tem o privilégio de contar na sua abertura com a presença do diretor e do mais novo e impactante filme do cinema brasileiro, ganhador do prêmio de Gramado, Corumbiara, realizado por Vincent Carelli. Na verdade, bastaria assistir algumas cenas deste filme para constatar que sua força está na junção de militância e arte cinematográfica, entre o cineasta e pessoas filmadas. Já nos seus primeiros minutos sentimos o que estar por vir: o encontro entre índios e cineastas é motivo para falar daquilo que está no campo e fora de campo, é motivo para explorar a leveza e a beleza do mundo indígena (ainda que isso fosse expresso apenas pelas palavras e corpos daqueles últimos sobreviventes de um massacre) em contraposição ao peso e à rudeza (ou crueldade) dos corpos dos fazendeiros-brancos (aqueles que invadem a terra dos índios e assombrosamente lhes levam à destruição – destruição
deles e da floresta que lhes serve de abrigo). César Guimarães, na apresentação do número da revista Devires acima citado, nos lembra “uma breve e intensa cena do primeiro contato, o olhar para acolher o convite que vem dele; aceita ser conduzido, e que causa uma pequena vertigem, um descentramento, as coisas se desenquadram momentaneamente, desequilibradas, fora de foco. Como numa dança sem ensaio, Tiramantu e Purá [índios Canoê, personagens do filme] conduzem a equipe para o centro da aldeia.
É nessa região onde a mata se encontra acuada pela ferocidade da expansão capitalista que o documentário (e com ele todo o cinema!) reinaugura sua cena primitiva, atualizada pelos dilemas e impasses da sociedade na qual vivemos.”

Imagens potentes das aldeias - ALFREDO MANEVY


Em seus vinte e cinco anos de história o projeto Video nas Aldeias produziu imagens, sons e signos inteiramente novos das populações indígenas. Houve, sem dúvida, uma transformação profunda na paisagem do audiovisual brasileiro, a partir da emergência de muitos grupos e cineastas oriundos das comunidades que participaram do projeto. Entre os brasileiros não-índios, disseminou uma imagem nova e potente de povos tradicionalmente representados por meio de estigmas - na abordagem ora romântica, ora genérica, ora superficial, sem capacidade de sequer sinalizar a enorme diferenciação característica dos ameríndios em solo nacional. Ou, como alternativa, a representação indiferente e perversa que tradicionalmente aponta as comunidades como foco da "ausência de desenvolvimento" ou exotismo. Além de garantir o protagonismo aos cineastas das comunidades, vale ressaltar que a forma como Vídeo nas Aldeias construiu sua abordagem permitiu que esses estigmas (traços de representação) fossem deslocados para abrir espaço a roteiros, histórias, falas, depoimentos, imagens que emergem hoje afirmando o campo simbólico das comunidades, não raro com os inúmeros conflitos reais que ali se estabelecem. Revelou e lançou também uma nova geração de documentaristas e cineastas de muitas etnias.

Memória de uma travessia - HENRI ARRAES GERVAISEAU


Quando o conheci, Vincent Carelli tinha acabado de concluir o documentário A festa da moça (1987). Vídeo nas Aldeias dava os seus primeiros passos, ainda como um projeto do Centro de Trabalho Indigenista.
Jovem cientista social, formado no clima ainda fervilhante do pós maio 68, na França, filho de militantes de esquerda e apaixonado por cinema, imbuído das idéias rouchianas de antropologia compartilhada, instigado, como muitas pessoas da minha geração, pela busca de meios de expressão da visão do que então denominou-se a dos vencidos da história, me entusiasmei de imediato pela proposta do projeto...

Moi, un indien - VINCENT CARELLI


PRIMEIROS CONTATOS
Quando, aos dezesseis anos, aterrissei pela primeira vez na aldeia Xikrin, no sul do Pará, descobri que o mundo era muito mais diverso e fascinante do que eu tinha suspeitado até aquele momento. A partir do instante em que avistei, ao longo da pista, aquelas silhuetas escuras de jenipapo e em seguida senti aquele cheiro de resina perfumada e de urucum, passei a ter uma nova percepção da humanidade. A fotografia se tornou para mim uma necessidade de compartilhar esse novo mundo que eu descobria.
Aos vinte anos eu já morava na aldeia Xikrin, e meu envolvimento com os índios passou a ser total. Eu simplesmente queria ser índio, mas os índios queriam um amigo que lhes desse as chaves de compreensão do que se passava ao redor deles, os ajudasse a se defender das doenças que maltratavam a aldeia. Quanto maior era o meu envolvimento, menos tempo me sobrava para fotografar. Eu aprendi desde então que arte e militância dificilmente andam juntas. Aqueles povos com os quais eu mais convivi e trabalhei foram aqueles que eu menos fotografei. Naquela época acontecia na região a guerrilha do Araguaia.

No registro da cultura: o cheiro do branco e o cinema dos índios - CARLOS FAUSTO


Os dilemas da tradição e da inovação colocam-se inelutavelmente à nossa frente sem resposta única, nem definitiva. Nós não estamos mais “virando brancos”, pois acreditamos já ter virado o suficiente. Esta condição nos parece alcançada enfim – hoje, não precisamos mais fazer cinema-europeu, cinema-de-hollywood, cinema-brasileiro ou algum cinema-novo. Não seria mais generoso, assim, apenas querer que os índios virem índios à maneira deles, mesmo quando isso signifique ... “virar branco” mais uma última vez?

Olhando do chão para cima: um relato da turnê do Vídeo nas Aldeias - LUCAS BESSIRE


Este relato compara dois eventos midiáticos recentes centrados na iconografia de povos indígenas amazônicos para iluminar o ativismo cultural do projeto de vídeo colaborativo Vídeo nas Aldeias.

Política, estética e ética no projeto Vídeo nas Aldeias - RUBEN CAIXETA DE QUEIROZ


Em 1987 nascia na cidade de São Paulo o Projeto Vídeo nas Aldeias como um desdobramento das atividades do Centro de Trabalho Indigenista. Tal projeto tinha a finalidade de incentivar os índios a realizarem e a observarem sua própria imagem além de buscar a formação de uma rede de troca de experiências entre os diversos grupos indígenas. Estas se inseriam particularmente no campo da política, ou seja, no processo de organização e luta dos índios em busca de seus direitos territoriais, em busca de seu reconhecimento étnico face à sociedade hegemônica e aos interesses colonizadores circunscritos no âmbito de uma política integracionista do Estado nacional.

Um outro olhar, uma nova imagem - VINCENT CARELLI


Uma síntese da trajetória do Vídeo nas Aldeias nos últimos 25 anos.

Vendo o mundo do outro, você olha para o seu - PAT AUFDERHEIDE


Para Quem e para Quê?
Para o Vídeo nas Aldeias, a resposta à questão para quem e para quê esses filmes são feitos muda com o tempo. Mas os organizadores do projeto Vídeo nas Aldeias sempre têm uma resposta. Alguns dos filmes foram feitos para convencer financiadores e outros apoiadores internacionais do valor do projeto como um todo. Outros – por exemplo, A Festa da Moça – foram feitos para permitir que um povo veja a si próprio. Alguns foram feitos pelos índios para registrar celebrações e rituais significativos, manter um registro, deixar uma memória para seus descendentes, e para compartilhar sua cultura com grupos aparentados. Alguns foram feitos para encontrar estórias dentro da cultura da vida quotidiana, e para explorar as responsabilidades do próprio projeto narrativo.
Todos esses objetivos encontram-se unidos pelo fio comum de expressar, apoiar e fortalecer a identidade dos índios amazônicos enquanto índios amazônicos – não apenas enquanto membros de um grupo cultural e linguístico particular, mas também como uma coleção de tais grupos, que compartilham um conjunto de problemas comuns face ao estado e à sociedade brasileiros. É um projeto altamente político, mas não-partidário. Ele é político num sentido que deve ser familiar ao público americano, porque foi concebido para criar um público onde antes não havia. Este é um público mobilizado não para reagir ao longo de linhas partidárias, mas para reagir a configurações de poder – empresarial, governamental, político – que ameacem a qualidade de vida de uma cultura.
O Vídeo nas Aldeias é o cinema etnográfico em sua forma mais clara. Aqui, expor a questão da função do filme etnográfico resulta em esforços criativos no sentido de alterar a balança de poder tradicionalmente refletida não apenas no olhar da câmera, mas também nas relações sociais e políticas que ela (e outras ferramentas expressivas) muitas vezes se limitam a registrar mas não a desafiar.

Vídeo nas aldeias, o documentário e a alteridade - JEAN-CLAUDE BERNARDET


Em “Um dia na aldeia”, um homem pesca uma traíra. A câmera mostra o peixe dentro da água, a lança o atinge, a câmera segue o movimento do pescador
que traz a presa para a margem.
Num outro plano, um menino caça um gafanhoto. Ele está num barco, a
câmera também. Delicadamente ele aproxima o barco da margem, deposita o
remo, estica o braço em direção ao inseto, o pega, volta à sua posição inicial e mostra a presa. A câmera acompanha os movimentos do menino, corrige em
direção ao gafanhoto e volta à sua posição.

Vídeo das Aldeias - MARI CORRÊA


Entrei no Vídeo nas Aldeias em 1998 para dar início às oficinas de
formação. Anos antes, quando conheci o projeto, ainda não se falava em formar
realizadores indígenas. “Ao contrário do que vocês fazem nos Ateliers Varan, nós
aqui não editamos as imagens dos índios, eles assistem suas imagens no bruto.”

Vídeo nas Aldeias no olhar do outro - MARI CORRÊA


Neste ano de 2006 vamos completar nove anos de oficinas de formação de realizadores indígenas. São vinte vídeos feitos por eles e produzidos pelo Vídeo nas Aldeias. Feitos por eles? O que isso quer dizer exatamente?
Nesse novo catálogo-livro abrimos espaço a essa reflexão, convidando realizadores e críticos que admiramos para dar início ao debate. Queremos ouvir o que esses filmes, oriundos de oficinas e portanto híbridos, dizem às pessoas que fazem e pensam o cinema.

Vídeo Parentesco: Um ensaio sobre A Arca dos Zo’é e Eu Já Fui Seu Irmão - FAYE GINSBURG


A Arca dos Zo’é e Eu Já Fui Seu Irmão, são dois vídeos extraordinários, que nos convidam a repensar as possibilidades da “pequena mídia” no fim do século 20 como tecnologias que facilitam as relações de parentesco, a auto-consciência cultural e informação política, invertendo o que as pessoas presumem ser as relações casuais entre mídia e alienação. Dirigido e fotografado por Vincent Carelli, ambos os filmes fazem parte do projeto Vídeo nas Aldeias dirigido por ele em associação com o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), um grupo de defesa que vem trabalhando com e para índios brasileiros desde 1979, situado em São Paulo. Esses vídeos são indicativos de um momento histórico chave no processo de formação de uma consciência nacional pan-indígena, que é crucial para o futuro desses grupos.

Você vê o mundo do outro e olha para o seu - ISAAC PINHANTA


Fui o primeiro professor da minha aldeia. Eu estudei na cidade um ano e daí fui para o projeto da Comissão Pró-índio1. A partir de 93, comecei a trabalhar com educação bilíngüe, alfabetizando em minha língua mesmo, a língua materna, que é a língua Ashaninka. Só era eu como professor na minha aldeia e também foi todo o início da organização, da criação da associação, da cooperativa… Foi através da Comissão Pró-Indio, em 1998, que conhecemos o Vídeo nas Aldeias.